sábado, junho 25, 2022

A ‘onda cringe’ atualiza a guerra de gerações na velocidade das redes

A não ser que você tenha estado em Marte nos últimos dias, ou tenha ficado fora das redes sociais, o que dá praticamente no mesmo, dificilmente não terá ouvido falar em cringe. Trata-se de um verbo em inglês cujos significados podem ser “encolher-se ou recuar com medo” ou ainda “sentir-se muito envergonhado ou constrangido”. Entre os jovens brasileiros, a palavra virou substantivo para definir hábitos embaraçosos, antiquados ou, para usar uma expressão dos velhos tempos, cafonas (este, reconheça, deve ser o termo mais cringe da história). As buscas pelo vocábulo no Google cresceram 500% na última semana e movimentaram a mais nova e bem-humorada batalha geracional entre a geração Z (formada por jovens de 11 a 25 anos) e os millennials da geração Y (adultos de 26 a 40 anos). Uns, os mais moços, acusam os outros de cringe.

CONECTADO – Thiago Grasson, de 19 anos: “Fico o dia todo no TikTok” –Egberto Nogueira/Ímãfotogaleria/VEJA

O tratamento desonroso de origem estrangeira já vinha sendo utilizado no ambiente virtual com certa frequência e não se referia apenas aos costumes de uma determinada geração, mas a qualquer coisa considerada digna de vergonha alheia. O cringe, no entanto, ganhou repercussão nacional depois de um tuíte de Carol Rocha, publicitária e apresentadora do podcast Imagina Juntas: “Por favor, jovens da geração Z, me contem o que vocês acham um mico nos millennials. Acho que falar mico já passou. É cringe, né?”. As respostas foram hilárias e envolviam o uso de determinadas roupas e até hábitos banais, como, veja só, tomar café da manhã. O músico britânico radicado no Brasil Ritchie, do alto de seus 69 anos, quis entrar na dança. “Dizer que fulano é cringe não faz sentido algum. No máximo, poderia se dizer ‘cringeworthy’ (digno de desgosto, asco ou desprezo)”, escreveu. “Como se abajur cor de carne tivesse sentido”, rebateu um seguidor, citando versos de seu sucesso Menina Veneno (1983). Eis o retrato de um fenômeno social antiquíssimo: a busca por uma identidade que seja, ou ao menos pareça, melhor, mais interessante e moderna — e que o buuuaá da internet amplia.

Os choques geracionais começaram a ser documentados e estudados após o fim da II Guerra Mundial, quando os americanos consagraram o termo “baby boomer” para se referir às pessoas nascidas a partir de 1945. Àquela altura, o espírito do tempo cobrava certa estabilidade, o que se refletiu em hábitos mais conservadores. Os filhos dos boomers, a chamada geração X, hoje formada por pessoas de 40 a 56 anos, viveram momentos de maior tensão social e tendem a ser mais liberais. Ao longo das décadas, hábitos, roupas e até mesmo expressões entraram, saíram e retornaram à moda em um ciclo sem fim. A tendência ao saudosismo, o hábito de lembrar uma banda ou um programa de TV e assim revisitar um passado de alegrias, não tem, afinal, idade.

Há, no entanto, um fator crucial neste debate em 2021. “Antes o cringe era algo velado, nós falávamos de como uma tia ou um professor eram cafonas, mas só numa roda de amigos”, disse a VEJA Carol Rocha, que também é estudante de psicologia. “Hoje está tudo escancarado, e o debate está disponível a todos.”

VIDA ADULTA - Eternos jovens: a série Friends retratou dilemas dos anos 1990 e 2000 –NBCUniversal/Getty Images

Todas as gerações estão nas redes, é verdade, mas a forma como cada uma se relaciona com elas tende a variar. O Facebook se tornou, em geral, o ponto de encontro preferido dos boomers, enquanto o TikTok é a atual febre entre os jovens. “A geração Z não fica postando a vida inteira no Instagram como nós, millennials. Assim como nós achamos o GIF de bom-dia das nossas mães um mico, eles pensam o mesmo dos nossos emojis e hashtags”, resume Carol.

Especialistas fazem ressalvas. Primeiro, o fato de que essas divisões são apenas tendências gerais, quase genéricas. Muita gente se identifica com aspectos de épocas distintas, sobretudo aqueles que nasceram perto da transição, como são chamados os zennials (mistura de Z e millennials). Além disso, em países como o Brasil o recorte socioeconômico pode ser tão decisivo quanto o geracional. Segundo dados do IBGE, até 2019 12,6 milhões de domicílios no país não tinham acesso à internet. Entre as classes mais baixas, nas quais o acesso virtual é escasso e a necessidade de ajudar no pagamento dos boletos começa mais cedo, não é justo dizer que a geração Z esteja ultraconectada ou possa se dar ao luxo de dispensar um café da manhã reforçado, como defendem os adeptos do cringe radical.

PAZ E AMOR – Movimento hippie: influência decisiva na geração X –United Archives/Getty Images

Atenta a pautas sociais e políticas desde cedo na internet, a geração Z é vista como mais cética. “Eu e meus amigos somos bombardeados com informações e por isso temos uma visão bastante realista sobre problemas econômicos e ambientais”, afirma Thiago Grasson, de 19 anos, estudante de publicidade e um criador assíduo de conteúdo no TikTok. Ainda que a sanha por likes e aprovação seja uma vocação real da juventude, os debates sobre saúde mental e “positividade tóxica” são mais frequentes no contexto de quem sucedeu à chamada “geração terapia” dos millennials.

Há também uma característica clara e elogiável da garotada: a forma como lidam com assuntos como racismo, homofobia e bullying. “São grupos muito mais tolerantes. Desde muito cedo eles são educados a conviver com o diferente”, diz Ilana Pinsky, psicóloga, consultora da Organização Mundial da Saúde (OMS) e coautora do livro Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Editora Contexto). “Minha geração também ouvia que devíamos respeitar a todos, mas a atual vivenciou isso na prática, é algo mais naturalizado.” Segundo a pesquisadora, a força de movimentos como o #MeToo, que encorajou mulheres a denunciar os mais variados tipos de abuso, tornou os jovens mais combativos e conscientes — isso é ótimo, ressalte-se. O efeito colateral, no entanto, seria a chamada cultura do cancelamento, estimulada pela polarização política. “O diálogo está cada vez mais difícil e focado nos extremos. É preciso ter tranquilidade para ver que as pessoas têm mais em comum do que parece”, afirma Ilana.

No mundo cada vez mais veloz, o choque de gerações agora se dá entre os jovens e os muito jovens. Antes, era necessário certo espaço de tempo para colocar em campos opostos as nuances geracionais. Hoje, as distâncias são mais curtas e, por isso mesmo, as diferenças são mais sutis. Provavelmente, a palavra da moda será considerada ultrapassada em um piscar de olhos. Logo, o cringe vai virar cringe.

Publicado em VEJA de 7 de julho de 2021, edição nº 2745

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