sexta-feira, junho 24, 2022

Ney Matogrosso, o falsete libertário da MPB, chega aos 80 tinindo

GÊNERO FLUIDO – O cantor hoje, em forma física notável: “Minha sexualidade sempre foi explícita” –Leo Aversa/Divulgação

Em certo dia de 1971, quando o Brasil vivia o auge da ditadura militar, Ney Matogrosso flanava sozinho pelo bairro da Liberdade, em São Paulo. Então na flor dos 30, ele se preocupava com a repressão, em especial contra os artistas. “Não queria perder o direito de andar na rua”, recorda-se agora, em entrevista a VEJA. Quando viu um cartaz do tradicional teatro kabuki japonês, em que os atores se apresentam de rostos maquiados, teve um estalo criativo: surgia ali a ideia de assumir a persona meio homem, meio mulher, meio lobisomem, meio pajé que o acompanharia para sempre e o alçaria ao estrelato nos anos seguintes com o Secos & Molhados. Após o fim do grupo, quatro anos depois, Ney já era uma das maiores vozes do país, e só ampliaria a fama de suas performances transgressoras na bem-sucedida carreira-solo. “O mais assombroso é que eu fazia tudo intuitivamente, sem ensaio. Não sabia que influência ou energia eram aquelas”, diz. Prestes a completar 80 anos, neste domingo, 1º, ele lança o EP Nu com a Minha Música, adiantando quatro faixas das doze que integrarão seu próximo álbum, gravado na quarentena e com lançamento em novembro.

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Em seus cinquenta anos de carreira, Ney transitou pela MPB como um lobo solitário, preferindo nunca ser associado a qualquer corrente musical (só admite certa proximidade com o rock dos Mutantes, no começo do Secos & Molhados). “Sempre cantei o que eu quis. Nunca me prendi a movimentos, e procurava dentro de mim o que eu queria, nunca fora”, diz. No novo disco, ele reafirma o ecletismo muito pessoal: vai de Caetano Veloso, na música-título, a uma versão de Gita, de Paulo Coelho e Raul Seixas, passando pela sugestivamente gay Mi Unicornio Azul, do cubano Silvio Rodríguez. Tudo, claro, sai com a cara e o falsete de Ney Matogrosso.

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Como se sabe, o impulso instintivo de ser diferente não faria dele apenas um ícone da música: talvez o maior legado de Ney resida mesmo na seara comportamental. Aqui cabe uma constatação irônica: o mesmo rebolado andrógino que tanto chocou o Brasil dos anos 70 acabaria se assimilando à normalidade da MPB, fazendo dele um artista querido até do público mais velho. Seu corpo virou parte indissociável de sua arte, e a sexualidade “fluida” (embora o termo ainda não existisse) antecipou, sem necessidade de carregar bandeiras, a atual afirmação LGBTQIA+. “As pessoas estão mais livres para se expressar agora. Mas minha sexualidade sempre foi explícita e é um complemento da minha pessoa.” Seria Ney precursor dos hoje chamados de “não binários”, as pessoas de sexo indefinido? “Sempre fui isso sem saber”, diverte-se.

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Se Ney nunca teve pudores em cima do palco, na vida pessoal e afetiva ele vem conseguindo evitar os holofotes — na medida do possível para alguém cujas atitudes no palco atiçam tanto a fantasia alheia. “Meu trabalho e vida pessoal não são focados na sexualidade. No meu entender, isso é secundário”, diz ele, que mora sozinho em um apê no Leblon, Rio de Janeiro. Dos casos amorosos, os mais notórios foram com o cantor Cazuza, morto em 1990, de aids, e o médico Marco de Maria, ao lado de quem viveu por treze anos. “As pessoas não querem saber da minha vida amorosa: o que interessa é a de qualquer pessoa, famosa ou não. Entendo que haja curiosidade, mas não vou mudar meu jeito.”

Se não fosse pela pandemia, Ney estaria celebrando o aniversário nos palcos. Quando a Covid-19 estourou, ele iniciava a turnê Bloco na Rua, cujo repertório privilegiava seus principais sucessos e se estenderia até o fim deste ano. Recluso em sua casa de campo, na região serrana do Rio, Ney aproveitou para tirar do baú uma dúzia de canções que nunca havia interpretado, e as gravou no novo disco. Na quarentena, ele também manteve sua rotina de malhação — o que explica a forma física notável para um senhor à beira dos 80. Até na solidão, o lobisomem da MPB não baixa a guarda.

Publicado em VEJA de 4 de agosto de 2021, edição nº 2749

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