sexta-feira, junho 24, 2022

Fashion ou cringe? O retorno das protagonistas de ‘Sex and the City’

“Não consegui evitar me perguntar. Onde elas estão agora?” Com essa questão e um vídeo de uma agitada Nova York publicados em janeiro em suas redes sociais, a atriz Sarah Jessica Parker acendeu a curiosidade sobre um possível revival da icônica série Sex and the City, lançada em 1998. Logo depois, a plataforma HBO Max anunciou And Just Like that…, série dividida em dez episódios, de trinta minutos cada um, que trará Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), Miranda Hobbes (Cynthia Nixon) e Charlotte York (Kristin Davis) aos 50 anos, em vidas e responsabilidades diferentes, mas ainda assim — a ver pelas fotos divulgadas — loucas por moda. Em um mundo muito diferente do fim da década de 90, quando a série foi exibida, vivendo uma pandemia e tomado pelo universo digital, a pergunta que se faz agora é se Carrie, Miranda e Charlotte serão novamente fashions ou se, dezessete anos depois, se tornarão mais um meme cringe (algo como “cafona” na linguagem da geração Z, nascidos entre o fim dos anos 1990 e o ano 2010).

A dúvida é pertinente. Ela evoca a tênue linha divisória em moda que separa o autêntico do caricato. E o verdadeiro, hoje, certamente é muito distinto do que há duas décadas, quando tudo o que o trio exibia na TV, especialmente Carrie, virava sonho de consumo. “É maravilhoso que elas sejam fiéis ao estilo pessoal e mantenham, aos 50, a exuberância”, afirma o estilista Dudu Bertholini. “Mas é preciso fazer uma atualização, sem o incentivo ao consumismo que pautava aqueles tempos.” De fato, não há nada mais fora de moda. Conceitos como o de compras sustentáveis e econômicas no tamanho da sacola estão aí. O contrário, ou seja, sair de um centro de compras carregada de sacolas lotadas com peças escolhidas por impulso, virou cafona. “Houve a desconstrução da ideia de comprar algo desnecessário ou indesejado só para ser quem você não é”, diz Bertholini.

Há outra mudança importante separando Sex and the City de And Just Like that…: as redes sociais. Elas mudaram tudo o que se entendia como referência em moda e a forma de consumi-la. Sua ascensão faz com que modismos surjam tão rapidamente quanto desaparecem. Além disso, vale muito quem está por trás do figurino. “O público das redes é muito ligado em comportamentos”, reflete Costanza Pascolato, uma das maiores autoridades do país no assunto. “As pessoas se moldam pelas personalidades que seguem.”

NOVO FIGURINO - O trio da icônica série americana lançada em 1998: relação mais saudável com o consumo –Raymond Hall/GC Images/Getty Images

O revival deve, sim, propor reflexões em termos de moda depois de tantas transformações. Em entrevista à revista Vanity Fair, Sarah Jessica Parker disse que ela própria tinha muitas perguntas sobre sua personagem, inclusive o que a moda significava para Carrie agora. Sem contar a introdução nos episódios do onipresente tema da pandemia de Covid-19, que também provocou intensas alterações nos costumes. No que diz respeito à aparência e ao vestuário feminino, os meses em que passamos confinados ampliaram a liberdade de assumir cabelos brancos, de abdicar do salto alto e de tirar do closet tudo o que signifique desconforto. Sarah, que até anos depois do final de Sex and the City teve sua imagem colada à da colunista nova-iorquina a qual deu vida, é exemplo acabado da mulher urbana, casada, com filhos, que na entrada dos 50 anos e vivendo uma pandemia jogou para o alto algumas convenções. Recentemente, apareceu com os fios grisalhos em um jantar no Anton’s, restaurante em West Village, em Nova York.

A nova série talvez não traga mais os exageros de consumo de Carrie — em um dos episódios antigos, ela percebe que gastou 40 000 dólares em sapatos mas não tem onde morar —, até pelos novos desafios das protagonistas. Elas têm outras aspirações profissionais, filhos adolescentes, casamentos que se transformaram em divórcios e a pressão de envelhecer com rosto e corpo perfeitos. Mas é fato, porém, que roupas, bolsas e sapatos continuarão sendo destaque. É só acompanhar as suntuosas e chamativas produções divulgadas. E a cada look, um alvoroço. O vestido pink Carolina Herrera, cinto Streets Ahead USA, clutch vintage Judith Leiber e, claro, o eterno scarpin Manolo Blahnik, por exemplo, já deram o que falar. E o que vender também: todos os itens estão esgotados.

Publicado em VEJA de 11 de agosto de 2021, edição nº 2750

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